“Ser bombeiro é ter amor ao próximo.” A frase resume a trajetória do 3º sargento da reserva remunerada Alécio Leontino Pereira, militar que dedicou a vida ao Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC) e que, mesmo após mais de duas décadas na reserva, mantém viva a paixão pela profissão.
Alécio ingressou na Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) em 1973, atuando inicialmente como motorista. Dois anos depois, em 1975, realizou o sonho que carregava desde o início da carreira: tornar-se bombeiro militar.
“É meu sonho ser bombeiro. Eu entrei na Polícia Militar pensando em ser bombeiro”, relembra.

Na época, a realidade operacional era muito diferente da atual. As viaturas eram caminhões Ford antigos e os bombeiros atuavam com equipamentos limitados. O capacete conhecido como “quebra-telha”, guardado até hoje pelo sargento, representa um período em que a coragem frequentemente compensava a falta de recursos.
“Hoje tem oxigênio, roupa de mergulho, viaturas modernas. O bombeiro mudou muito”, destaca.

Ele lembra que, antigamente, muitos deslocamentos eram feitos com bombeiros posicionados na parte externa das viaturas, enfrentando frio, chuva e sol durante os atendimentos. A comunicação entre as equipes também era improvisada, realizada por sinais manuais para aumentar ou diminuir a vazão da água durante os combates a incêndio.
Entre as ocorrências que marcaram sua carreira está a enchente de Rio do Sul, em 1983. Durante 15 dias de atuação intensa, permaneceu sem contato com a família enquanto trabalhava no resgate e apoio às vítimas.
“Naquela enchente eu perdi tudo, mas trabalhando a gente esquecia de tudo. Só fui perceber depois de 15 dias de atuação”, conta.
Mesmo diante das dificuldades, a missão de salvar vidas sempre falou mais alto.
“A gente fica querendo salvar as pessoas de qualquer jeito.”
Outro episódio marcante ocorreu durante o período em que atuava em São Bento do Sul, entre 1984 e 1987. Enquanto seguia para encontrar a esposa e a filha em Blumenau, recebeu a notícia de que o ônibus em que elas estavam havia caído em um rio. Na tragédia, perdeu a filha de seis anos e o bebê que sua esposa esperava.
“Ficamos de 10 a 15 dias procurando. Dois colegas meus encontraram o corpo dela”, relembra emocionado.
Mesmo diante de perdas profundas, Alécio permaneceu firme na missão de servir. Para ele, ser bombeiro vai muito além da atividade operacional.
“Problema de casa a gente deixa em casa. Muitas vezes eu chorei atrás do caminhão quando queria salvar uma pessoa e não conseguia.”

Ao longo da carreira, também testemunhou a evolução do atendimento pré-hospitalar no CBMSC. Uma das lembranças que guarda com carinho é a adaptação de um veículo Elba, doado por um empresário socorrido pelos bombeiros, que passou a ser utilizado como ambulância e trouxe avanços importantes para o atendimento à população.
Hoje, após 26 anos na reserva, o sargento segue próximo da corporação.
“Eu não abandono os bombeiros. O que eu puder fazer para ajudar, eu vou fazer. Eu sou apaixonado pelos bombeiros. Eu vivo o bombeiro 24 horas. Chego em uma cidade e a primeira coisa que quero fazer é conhecer o quartel.”
Com orgulho, deixa uma mensagem às novas gerações de bombeiros militares:
“Seja um bombeiro com fé, com amor e com dedicação, porque vale a pena ser bombeiro.”
O capacete antigo, preservado com carinho ao longo dos anos, simboliza mais do que uma lembrança de serviço. Representa uma vida inteira dedicada ao próximo.
“A minha intenção é que, no dia em que eu partir, coloquem meu capacete no meu caixão. É o orgulho que eu tenho.”
O projeto “Histórias de Bombeiros” é uma produção do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina

